quinta-feira, 10 de abril de 2014

Estradas & Roubadas - Dicas Pra Encarar Shows Ao Vivo

Paulo May


          A ideia desse post foi de um amigo nosso do antigo fórum da Guitar Player, grupo que atualmente se reune no Facebook com o codinome "Boteco dos Guitralhas", o Fabrício Barbosa.

Durante uma discussão sobre o novo sistema "Min-ETune" da Gibson, de afinação automática, alguns acharam que o aparelho é muito caro e talvez desnecessário, mas outros, principalmente os que labutam em shows semanais ao vivo, acharam que esse sistema seria muito útil.
Eu toquei ao vivo durante 13 anos e posso garantir-lhes que guitarra desafinada no meio de um show é um fator de alta periculosidade e muito estressante.



O Min-ETune é uma versão aprimorada do antigo sistema da Gibson. Com o atual, não há necessidade de furar nada (fácil instalação) e o peso é igual ou até menor que 6 tarraxas convencionais, com mínima, senão nenhuma, interferência no timbre.


Além de afinar automaticamente a guitarra, também há presets de afinações alternativas, como as clássicas "G Aberto" (Keith Richards) e "E Aberto" (ótima pra slide). Pra quem toca covers, é uma mão na roda dupla: além da afinação convencional perfeita, podemos alternar as afinações sem ter que trocar de guitarra.
O sistema não é da Gibson e sim da empresa Tronical, que o produz também para guitarras com seis tarraxas em linha, como as Fender  - clique aqui para visitar o site

 Bem, enquanto o preço não abaixa um pouco (cerca de 300 dólares), temos que nos virar com afinadores convencionais. Os novos polifônicos como o Polytune da TC são ideais.


          Nenhuma banda (com exceção é claro das formadas por músicos já famosos) começa gloriosa e auto suficiente. 99% tem que encarar as vicissitudes da estrada e palcos da vida. Em última análise, sobrevivem apenas as que, além do talento, conseguem adaptar-se rapidamente às merdas que vão surgindo. Um "mapa de palco" versátil e adaptável é essencial. pois o objetivo primordial de toda banda deveria ser "soar bem".
De nada adianta ter um puta repertório, próprio ou de covers, estar bem ensaiado, ótimos instrumentos e na hora de mostrar tudo isso, o público ouvir um som horroroso, desequilibrado e até desafinado. Todo mundo começa com um carro velho ou uma Van e, se tudo der certo e deus ajudar (mas nunca deixe tudo por conta dele), pode terminar com um avião próprio :)

 


Algumas dicas para guitarristas (baseadas nas minhas experiências pessoais) para evitar as "roubadas":

1) Tenha sempre um reserva/backup de todo o seu setup: de cabos a guitarras, de pedais a amps. Nem todos podem ter 2 amps e mesmo que tenham, viajar com amps não é fácil. Eu sempre levava comigo um simulador para emergências extremas: amp pifado sem backup ou até mesmo quando o contratante simplesmente não alugava um amp de guitarra! Comecei com o analógico SansAmp e depois o POD. Se TUDO desse errado, eu plugava a guitarra no simulador e ele ia direto pra mesa de som. Recomendo, se possível, simuladores que funcionem também com pilhas (sempre tenha muitas, sobrando)

2) Afinadores: no mínimo 3. Um no palco, de preferência na forma de pedal com mute e true bypass. Nunca pare totalmente o show para afinar um instrumento - no mínimo, combine com o baterista e o baixista pra eles puxarem um groove interessante enquanto afinas. A peteca NUNCA pode cair.

3) Cabos e Cordas - Cabos: no mínimo 6, de diferentes comprimentos. Sempre chequei a continuidade dos cabos antes dos shows, com multímetro. Cabos velhos só têm um destino: lixo.
Cordas: no mínimo 2 jogos de reserva. Evite trocar as cordas no dia do show porque elas precisam de um certo tempo pra estabilizarem bem a tensão.

4) Na passagem de som, nunca perca muito tempo tentando resolver problemas maiores. Tenha sempre um plano "B". Pedaleira com problemas? Amp ruim? Puxe o simulador com os presets que preparaste em casa. Ninguém vai notar que aquele teu solo está sem o delay sincronizado... As pessoas ouvem uma banda e não um solo.

5) Aprenda a identificar o "supérfluo". O palco é pequeno demais? O baterista pode tocar só com um prato de ataque, amps grandes podem ser substituídos por menores, o baixista pode tocar direto em linha, etc. Egos não são importantes e o "som" é tudo.

6) Repertório: o som do PA não tá muito definido? Priorize as músicas mais simples e diretas. Algumas músicas só são legais se o som estiver legal. Esqueça solos e partes complexas. Banda realmente foda é aquela que modifica os arranjos em tempo real, conforme o momento e as condições. Músicas próprias e desconhecidas não são ideais para bares, principalmente quando o som não está perfeito. Tenha sempre na manga um belo naipe de covers ultra conhecidos, porque se o PA estiver uma merda, a memória musical do público pode compensar o que falta.

7) Guitarra: ela é a sua arma, decisiva e fundamental. Uma guitarra "de estrada" tem que ser 100% confiável o tempo inteiro. Durante muitos anos tive apenas duas guitarras, uma Telecaster Custom de 1974 (backup) e uma Telecaster de 1968. Quando adquiri a 68, em 1989, levei-a para a estrada e em menos de 3 meses o captador da ponte morreu. Sem dó nem piedade, coloquei um Seymour Duncan Hot Rail (humbucker) no lugar do falecido. Perdeu totalmente o timbre vintage, mas ficou silenciosa e com agressividade sobrando, versátil e muito mais confiável (hoje ela está com o timbre mágico vintage novamente). Se tivesse que tocar ao vivo novamente, jamais levaria a Tele 68, 74 ou a Gibson 81 ou a Gibson CS 2013. Só se fosse num teatro, com excelente sonorização.
Hoje, levaria essas duas guitarras:

Clique para saber mais
**) - PRS SE Custom 22: Tarraxas Planet Waves Auto Trim Lock (as mais rápidas para troca de cordas) e timbres que vão do metal ao jazz. Braço magnífico, perfeito.


Clique para saber mais
**) - Telecaster Custom de freijó. Só falta trocar as tarraxas Grover por Planet Waves e ela tá pronta pra qualquer roubada :)

Todos os captadores são do Sérgio Rosar (ele não faz caps de braço de tele, mas rebobinou esse pra mim). Strato? Complicado... 3 single coils, ruído, exigentes com amps... Uma strato HSS seria até viável e tenho umas duas assim, mas...  :)
Adoro o som de captador single coil (P-90 incluído), mas os singles são ruidosos por natureza e acho que utilizá-los em shows comuns, com equipamentos de terceiros, é um risco desnecessário e detesto arriscar. Levar uma guitarra com P90 para um show sem garantias é praticamente uma roleta russa - haja coração! :)

8) Essa aqui eu acabei de roubar do Ari Herstand no ótimo texto "10 coisas que vocês jamais devem dizer no palco". A mais importante:
"Estamos tendo problemas técnicos"
Mesmo se a sua guitarra tenha acabado de pegar fogo. Bem, na verdade, seria hilário se você dissesse isso numa hora dessas. Mas quando as bandas embaraçosamente admitem isso ao microfone, é bastante desconfortável a broxa geral. Problemas técnicos são sua culpa. Mesmo quando não o são. É seu palco. E é seu show. Você deveria conhecer seu equipamento de olhos fechados. Se algo está falhando ou apitando ou dando microfonia, você deveria saber identificar de pronto o que é e poder saná-lo em 13 segundos ou saber como deduzir rapidamente do que se trata.
É sua tarefa, como performer, comandar a atenção de todos na casa do começo ao fim.

9) Lembre-se: vocês estão tocando para uma plateia que quer diversão e não para críticos musicais ou diretores de gravadoras. Primeiro agrade a plateia, depois, se houver espaço, o seu ego.

10) O mais importante: quando os shows tornam-se apenas compromissos e o prazer de tocar guitarra acaba, é hora de de parar!

O Billy Gibbons tá cheio de dinheiro e já poderia ter parado há muito tempo, mas sua paixão pela música e guitarras ainda é de dar inveja :)



domingo, 30 de março de 2014

Fender 5E3 - The Tweed Deluxe

Oscar Jr.

          Lá pelos idos de 1940 Leo Fender trabalhava na concepção de algo que pudesse amplificar o som da guitarra elétrica e continuasse o mais limpo possível mesmo em volumes mais altos. Pensando como engenheiro da época (imagine-se em 1948), seria lógico pegar o circuito amplificador de um rádio valvulado e transformá-lo/adaptá-lo em algo que pudesse pegar o sinal do captador magnético da guitarra e amplificá-lo através de um alto-falante. Nascia aí o primeiro dos amps da famosa "Era Tweed" dos amps Fender, o Tweed Deluxe.
Fender 5E3 Tweed Deluxe
A primeira leva era conhecida como "Wide Panel TV" por ter visual semelhante a uma TV da época (alguém já leu a expressão TV yellow? :-) ) e tinha os circuitos 5A3, 5B3, 5C3 e 5D3 entre os amps de 1948 e 1952.  A concepção do amp (assim como tudo o que Leo Fender fazia) era extremamente simples. Sem entrar em detalhes técnicos, ele apresentava 2 entradas sendo que cada uma tinha um volume independente e ambas dividiam um mesmo controle de "tone". Uma das entradas era para um microfone de voz e outra para a guitarra e o objetivo era que o guitarrista/cantor pudesse equiparar o volume da bateria para uma apresentação ao vivo amplificando a guitarra limpa. O que Leo Fender não imaginava era que o Tweed ficaria famoso justamente pelo som que produz quando o volume aumenta além do que as válvulas 6V6 suportavam produzindo o que é talvez um dos timbres distorcidos mais famosos de guitarra. Larry Carlton, Billy Gibbons, Don Felder e Keith Richards estão entre alguns dos nomes que usaram e ainda usam o 5E3 nas suas gravações. Os primeiros albuns do ZZ Top registram timbres magníficos do 5E3 Deluxe junto com Pearly Gates.

Meu interesse no 57 Deluxe começou mais ou menos na mesma época dos PAFs quando descobri que   o clássico do ZZ Top - Brow Sugar foi gravado com um 5E3, assim como La Grange e outros tantos clássicos do grupo liderado pelo reverendo Billy Gibbons.


Esse timbre, essa resposta dinâmica, a impressão que tenho quando ouço essa música (principalmente a introdução) é que Gibbons tem o timbre sob seus dedos o tempo todo. Altera a palhetada e a pegada a todo momento para conseguir texturas e derives de diversas cores de acordo com o que deseja. Os PAFs e a Pearly Gates são parte da fórmula, mas o amp também é fundamental. A explicação técnica no caso do 5E3 é que se trata de um amplificador com algumas características da arquitetura "Classe A", conhecidos pela extrema resposta dinâmica tanto da palhetada como do volume da guitarra, assim como o VOX Ac-30 por exemplo entre alguns outros. (PS: Na verdade o VOX AC30 não é um "CLASS A" puro, mas sim um híbrido com apontamentos de Class A e Class AB para melhor desempenho. Segundo o John nos comentários, o Deluxe 57 entra também nessa categoria. Eu realmente preciso estudar mais um pouco pra entender 100% o que isso significa )

Controles simples do 5E3 Deluxe
Pois bem, como conseguir esse timbre nos dias de hoje? O circuito do 5E3 é relativamente simples e fácil de ser copiado, mesmo por que o esquemático é amplamente divulgado e conhecido na internet. Algumas marcas fazem clones idênticos e outras usam a arquitetura básica e adicionam alguma mágica pra extrair novas texturas como por exemplo o Bogner Lafayete , mas aqui no BR era quase impossível encontrar algo parecido com isso (parece que a Serrano amps faz um clone do 5E3). Eu mesmo nunca tinha tido a oportunidade de tocar em um até muito pouco tempo atrás, mas quando apareceu foi amor a primeira vista. 


Ano passado o Luciano da Garagem Instrumentos aqui de Ctba me ligou dizendo que havia comprado um lote de "ponta de estoque" da Pride (importadora oficial da Fender no Brasil) e que iriam chegar algumas coisas que eu talvez fosse gostar. Conheço o Luciano há muitos anos. Recentemente ele resolveu abrir sua própria loja e conhecendo o bom gosto dele já sabia que só viria coisa boa por aí. Pois bem, quando fui na loja ele havia acabado de receber o carregamento e dentre as coisas estava simplesmente um Fender Custom Shop 57 Amp. 


O impacto visual é impressionante nesse amp, e eu mesmo não conhecia até vê-lo pessoalmente. Fui pesquisar.... Descobri que a Fender relançou o Deluxe em 2007 com dois modelos Custom Shop. Um deles é o original Tweed, com todos os atributos e especificações do original e um segundo modelo "hot rodded" que é o 57 Amp. 


O conceito da Fender nesse amp foi tentar imaginar o que Leo Fender faria se fosse idealizá-lo como um amp "Boutique", ou seja, com tudo o que se tem de melhor mantendo as características clássicas. Pra isso, convocaram o designer industrial Shawn Greene que junto com o engenheiro de design Nick D'amato e o diretor de marketing Shane Nickolas desenvolveram e chegaram nesse design maravilhoso. O gabinete é em maple sólido com acabamento de "piano lacquer", a grade frontal tem design baseado nos antigos Cadillacs dos anos 60, a alça de alumínio e o painel cromado com knobs personalizados... São alguns detalhes que já fazem valer o visual do Amp como se pode ver nas fotos.  


Nas especificações técnicas, o 57 amp é todo feito manualmente (hand-wired) ponto a ponto, equipado com transformadores Mercury Magnetics especialmente desenvolvidos para o projeto, falante Celestion Alnico Blue, 2 válvulas 6V6 no power, 2 12Ax7 no preamp e uma 5Y3 retificadora garantem ao 57 Amp toda a sonoridade do clássico circuito 5E3 com um toque de modernidade. Tem um pouco mais de ganho e soa mais "na cara" que seu irmão Tweed. Uma verdadeira obra de arte. 

Abaixo um vídeo a apresentação dos dois modelos na NAMM de 2007 com Shane Nickolas:


Quando toquei com ele me apaixonei.... Com certeza o amp mais dinâmico e responsivo que já tive/toquei até hoje. Incrível. Não preciso nem dizer que trouxe o amp pra casa e sim vou graver algo com ele pra vc`s ouvirem e atualizo o post aqui. Gravo com LesPaul, Tele e Strato pra terem uma idéia das diferentes respostas do amp. Fiquem ligados que essa semana ainda sai.




PS: Fiz um negócio excelente com o Luciano pois ele pegou esse amp num lote de equipamentos que a Pride estava liquidando como ponta de estoque (esse em especial estava com preço bem abaixo por ter sido usado no stand da importadora na ExpoMusic) e nem deixei ele expor na loja. Quem quiser conhecer a Garagem pode procurá-los no Facebook . Eles sempre postam novidades e volta e meia tem peças como essa de ponta de estoque com preço bom e ótimas condições. Sempre bom conhecer lojas e lojistas qe entendem do que fazem e são tão malucos por instrumentos quanto nós!






quarta-feira, 26 de março de 2014

Monte sua própria Fender

 Paulo May

:)
É claro que vamos ficar só na vontade... Com os impostos brasileiros nem pensar em comprar uma dessas, mas é divertido demais escolher as partes e montar uma tele ou uma strato como se estivéssemos na loja da Fender Visitor Center. Clique nas fotos para entrar na página original.

http://www.fender.com/en-BR/american-design/instruments/


http://www.fender.com/en-BR/american-design/configurator/


O C. F Apparício sugeriu um link também muito interessante: CLIQUE
Semelhante a esse da Fender. Pena que a versão disponível seja um pouco limitada.

sábado, 15 de março de 2014

George Gruhn

Paulo May


          Manter o blog ativo não tá fácil... Se eu não tivesse que responder tantas perguntas diariamente, com certeza teríamos posts com maior frequência. Não que eu não goste disso - é legal e mostra que o blog é interessante, mas definitivamente consome tempo e energia.
E quando coincide com os períodos em que o Oscar fica sem tempo, aí...
Até tenho algumas ideias e rascunhos separados, mas desde o primeiro post aqui, sigo a regra pessoal de só postar quando sentir que o assunto é legal, instiga a imaginação ou traz alguma novidade relevante, como é o caso desse post sobre o especialista em instrumentos vintage George Gruhn.

George Gruhn na frente de sua loja em Nashville (2011).

Há dois dias resolvi jogar fora quase toda a minha coleção da revista Guitar Player brasileira (nem me perguntem por que) e no meio delas me deparei com várias GPs americanas que eu tenho guardadas desde os anos 80. Essas não tive coragem de jogar fora e ontem peguei uma aleatoriamente pra ler (GP de março de 1985) com uma Les Paul sunburst na capa, como essa:


          PQP! Acho que há mais de 20 anos não a lia e me lembrei de quase tudo da época, principalmente um artigo (Sunburst Gallery) do George Gruhn (ele tinha uma coluna fixa na revista) sobre as Les Pauls Sunburst clássicas, de 58-60. Ao ver as fotos de várias burst maravilhosas, me lembrei nitidamente da sensação que tive na época e compreendi porque não me impressionei. Estávamos em 1985 e o senso estético era absolutamente distinto do atual (hoje não há tanto foco na moda - ou são múltiplos focos, penso eu), com aqueles exageros dos anos 80 refletidos nas guitarras. Todo mundo só falava em Kramer, Ibanez, Jackson, enfim, nas "super guitarras" e, naquele contexto, as bursts clássicas com seus tops figurados pareciam... Sim, exatamente isso, velhas e "bregas"! :)

Eu ainda tinha um segundo motivo pra justificar tal desprezo: na época havia tocado em duas Les Paul "novas" e as tinha achado muito ruins, principalmente pela falta de dinâmica e ataque dos captadores. Eram Les Pauls de 1984 ou 85, mas na minha cabeça era tudo a mesma coisa. Em 1983, pra ser justo, toquei uma Les Paul 1958 original com PAFs e essa me impressionou pelo timbre, fabuloso e cortante como uma tele, porém o braço era estupidamente gordo (1958...) e lento se comparado com os braços modernos da época e até com a minha Tele de 1974. Me lembro nitidamente desse dia e do que pensei: "Puta timbre, mas esse braço gordo é inviável"... :)
Entendido isso, reli todo o texto de George Gruhn e fiquei impressionado com o conhecimento que ele tinha. Deu pra perceber que Gruhn foi referência pra vários livros publicados desde então. Mas o mais interessante de tudo é quando ele mencionou que "o preço de uma sunburst, principalmente com top de curly maple, pode chegar (em 1985) a absurdos 14.000 dólares!" KKK! Mal sabia ele que haveria uma escalada monumental de preços entre 1998 e 2007 e algumas dessas guitarras chegariam perto de meio milhão de dólares!
Hoje o mercado deu uma esfriada, mas as 59 ainda estão na faixa de 200-300 mil. E ele acompanhou tudo desde o tempo que elas custavam 200 dólares :)

George Gruhn começou a colecionar e vender violões e guitarras na década de 60 e nunca mais parou. Adquiriu tanto conhecimento que já é uma lenda viva na história desses instrumentos. Pra quem se vira no inglês, seguem dois links com excelentes entrevistas de Gruhn: CLIQUE-1 e CLIQUE-2

Pra quem sofre com o inglês, coloquei legendas num vídeo onde George Gruhn dá uma "palhinha" sobre as bursts:

Obs: George esqueceu de mencionar que a Gibson mudou o tipo de pigmento vermelho no final de 1959, por isso a maioria das Les Pauls feitas em 1960 ainda mantém boa parte da cor original. As 58 e 59 são quase todas "desbotadas", apresentando tonalidades diversas que hoje em dia têm inclusive "nomes" como "honey burst", "lemon burst", etc. Mas todas (com exceção de raras originais em Tobacco Burst, de 1959) eram pintadas originalmente com um degradê de vermelho cereja para amarelo no centro.

          Alguém pode estar questionando agora onde está a "novidade" que eu mencionei no início do post, pois tudo aqui é passado... :). Pois bem, a novidade - e pode ser só pra mim, tudo bem -  é a perspectiva do conceito "Les Paul" ampliada até os anos 80. Olhando para o passado conseguimos entender melhor o presente.

Observando a sabedoria de Gruhn descobri também que eu era um guitarrista "utilitátio" e mudei para "colecionador" há uns 6 ou 7 anos. O que me fez mudar? Provavelmente no dia em que resolvi entender a física e construção do instrumento que eu tocava. Foi como sair da "Matrix": de repente eu conseguia ver e apreciar coisas que sempre estiveram presentes mas eram invisíveis para mim. Durante mais de 20 anos fui absolutamente utilitário (embora a minha primeira guitarra digna tinha que ser uma Tele Fender e viajei de carro até SP só para comprá-la) - já contei aqui como depredei o valor histórico da minha Telecaster de 1968 sem o mínimo remorso (na época, agora fico aterrorizado :) ).
Hoje acho que sou mais "Colecionador", mas o lado utilitário ainda é forte. Se tivesse que tocar num show ao vivo agora, das quase 40 que tenho, levaria apenas duas guitarras: a PRS SE Custom 22 e a Telecaster de Freijó. Nenhuma das duas tem qualquer pedigree digno de nota, mas são guitarras absolutamente práticas, confiáveis e funcionais - além de soarem muito bem.

George Gruhn diz que há 3 tipos de compradores de guitarra: o "Utilitário", que quer um instrumento prático e funcional, não se preocupa com detalhes ou marcas e não gosta de gastar muito. Há também o "Colecionador", que foca nos detalhes, originalidade e valor histórico e pode gastar muito num instrumento, às vezes impetuosamente. Por último, o execrável "Mercantilista", que adquire apenas com objetivo lucrativo. Os dois primeiros criam um vínculo com seus instrumentos, enquanto o último é basicamente um mercenário :).

George Gruhn (foto dos anos 70).
Ele vende e sempre vendeu instrumentos como meio de vida, mas continua apaixonado e fascinado por eles... Assim como nós :)

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

O Mistério do Braço de Maple...

Paulo May


         Infelizmente não consigo parar com meus experimentos de madeiras brasileiras - e olha que essa desistência já foi anunciada aqui várias vezes... :)
O Brasil é conhecido pela infindável variedade e qualidade de suas madeiras mas minhas tentativas de utilizar algumas delas em corpos de guitarras - principalmente stratos e teles - foram frustrantes, pra dizer o mínimo. O Cedro de longe foi o mais tentado e sempre, invariavelmente, mostrou-se abaixo das expectativas, independente do tipo de guitarra. Não tem a complexidade e o equilíbrio do alder ou do ash americanos. No ano passado consegui alguns bons resultados com 2 teles e uma strato (hardtail) de marupá. E também uma Tele de Freijó, que estava indo pro lixo mas acabou funcionando num golpe de sorte. Entretanto, o Freijó ainda está um pouco aquém das madeiras clássicas americanas.

Não pretendia mais utilizá-las, mas durante esse tempo, uma madeira em especial, o Angelim, duro, pesado e teoricamente inadequado para guitarras, não me saia da cabeça. Já bem acostumado com a sonoridade do Marupá, quase legal, mas com um pentelho a mais de graves e outro pentelho a menos de punch de médios, imaginei que um corpo com um centro de Angelim e laterais de Marupá pudesse funcionar. Meu luthier Inaldo já havia me falado o que eu imaginava do Angelim - muitos médios...

Eu tinha uma Telecaster HH (H/P90) de Cedro com top de 1 cm de Marfim que sempre soou daquele jeito "Cedro": meio fechado, sem ressonâncias claras e um buraco nos médio agudos (por volta de 1,8kHz). O Marfim não acrescentou absolutamente nada ao cedro e o Marfim, na minha opinião, é uma madeira superestimada pelos luthiers brasileiros. Inútil.

Essa era a Telecaster de cedro/marfim com braço de maple:


Enviei um e-mail para o Adriano da RDC Guitars de Belo Horizonte e com a eficiência de sempre, em uma semana eu estava com esse corpo de Angelim/Marupá aqui em casa:


Tive o cuidado de gravar a Tele de Cedro/Marfim antes de transportar tudo dela para essa de Angelim/Marupá porque como sempre falei e insisto, a única maneira fiel de comparar dois ou mais timbres é com gravações idênticas. A nova Tele ficou assim:

Inicialmente, mantive o P90, mas ele continuou soando muito gordo e troquei-o por um single de strato Rosar, muito melhor nesse setup. As gravações porém, foram todas feitas utilizando apenas o humbucker da ponte (Alnico V, 8,5k, retirado da Vintage AFD).
Comparei as duas gravações e tudo que faltava na Tele de Cedro: brilho, estalo, dinâmica, apareceu bem mais evidente na de Angelim. Pensei: "Hum, encontrei uma combinação muito legal!"

Entretanto, havia um problema com o braço de maple - quando eu o modifiquei, de um "C" gordo para um "V" típico dos anos 50, devo ter lixado inadvertidamente apenas um lado do assoalho que acopla no tróculo e ele estava com um decaimento horizontal - compensado pelo Inaldo com uma folha fina de madeira (foi ele quem envernizou o braço e o instalou). Como tinha um outro braço de Tele aqui, de maple mas com escala de rosewood (irmão do mesmo braço que resolveu a tele de Freijó), coloquei-o e a guitarra ficou até mais interessante no visual.
Mas daí veio o choque inesperado: ao gravar novamente essa mesma guitarra de Angelim com o braço de maple/rosewood, metade do que ela havia ganho em relação ao Cedro perdeu-se. Quase voltou a soar como a velha tele de Cedro. PQP! Eu sempre li, já falei aqui, mas nada como um tapa na cara pra lembrar que o BRAÇO É TÃO OU MAIS IMPORTANTE QUE O CORPO!

Ouçam vocês mesmos um fragmento das 3 gravações:

E daí?
Recapitulando: o braço de maple não ajudou a ressuscitar o Cedro zumbi, mas acrescentou brilho e clareza ao Angelim/Marupá. O Angelim/Marupá que parecia uma combinação excelente, quase virou zumbi quando perdeu o braço de maple... Concluo, em termos práticos, que o Cedro continua uma porcaria (exceto para guitarras modernas, com captadores de alto ganho, cerâmicos) e não há santo que dê jeito e o Angelim/Marupá é melhor que o cedro (e o marupá puro) mas depende do maple pra soar claro e aberto...

E, se o caro leitor que acompanha o blog leu esse post sobre a Tele de Freijó, vai observar que o Freijó só funcionou com o braço que não funcionou com o Angelim - ele soou terrível com o braço de maple e quase perfeito com o braço de rosewood/jacarandá. Vai entender...
Outra conclusão paralela é: "Não quer errar/arriscar? Use um corpo de Alder". O Alder é a madeira que mais dá certo em guitarras "Fender" e ponto final.

Não adianta, é quase impossível saber o resultado final de uma combinação braço/corpo sem montá-los e ouvi-los. Se tivesse um pouco mais de saco, colocaria outro braço de maple, pois esse outro braço (medidas, densidade, verniz) poderia não soar igual...

É foda e como disse no post sobre a Tele de Freijó, parece que cada vez eu sei menos. Fico à mercê das afinidades misteriosas das madeiras - PQP!.
Enviei o braço de maple para o Inaldo refazer o assoalho - ficou perfeito e o braço voltou para a Tele de Angelim, que tá soando como deveria agora. :)

         Um último detalhe: o captador do braço, um single Rosar "True Vintage" está soando divino nessa tele de angelim/marupá. O Adriano já sugeriu que eu montasse uma Tele "clássica" com esse corpo e confesso que tô me coçando :). Nessa altura dos acontecimentos, tenho até medo de me arriscar em palpites, mas tudo leva a crer que uma Tele clássica de angelim/marupá (mais leve que a de cedro) deve soar bem melhor que uma toda de cedro (nem pensar), marupá ou freijó. Vamos ver... Com essa novela dos braços é bem capaz de eu me incomodar novamente :)


sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Les Paul Junior DC "TV Yellow"

Paulo May


Não adianta, eu não resisto à tentação das ofertas na internet :)

Depois que descobri como é fácil e bastante seguro comprar produtos chineses via "ebay" e considerando o fato de que apenas uma das minhas últimas 10 compras foi taxada no Brasil (embora quase todas tenham sido de baixo valor), acabei me envolvendo em mais uma (na verdade duas, porque tem uma outra LP DeLuxe saindo do forno) aventura "DIY".
Após todos esses anos me envolvendo com a parte "luthierística" das guitarras, dá pra reconhecer uma boa madeira e esses corpos e braços chineses de mogno têm me surpreendido bastante. Se é mogno africano (improvável), filipino, das Ilhas Fiji ou de qualquer origem oriental, pouco importa. É mogno, surpreendentemente leve e de boa qualidade.

Em 2013 adquiri uma Gibson Les Paul Junior single cut e fiquei apaixonado pela sonoridade (P90 Dog Ear) tocabilidade e simplicidade dessa guitarra. É a Gibson mais próxima de uma Telecaster que já ouvi. Tem o charme e a brutal praticidade de uma tele, mas ainda mantém uma personalidade sonora única. É uma guitarra absolutamente "Rock'n'Roll! :)
Essa é a Gibson:
Ela é de 2011/12 e é MUITO provável que o mogno seja fijiano (Ilhas Fiji - já comentei sobre isso aqui - clique). Muito leve e ressonante.

A EDEN guitar parts vende via ebay e através de seu próprio site. Os preços são bons e já havia comprado lá antes. Tudo entregue direitinho e declarado sempre abaixo de 50 dólares (embora não seja muito acima disso :). Prefiro comprar tudo separado e em etapas pra não chamar muito a atenção, mas recomendo, quando alguém quiser comprar braço e corpo, fazê-lo numa compra só pra evitar discrepâncias na colagem/montagem da guitarra. Comprei o braço antes e só depois resolvi comprar o corpo - o que gerou algumas incomodações para o Inaldo, o meu luthier, mas o cara é fera e a colagem e entonação ficaram perfeitas.
Aqui, o corpo e o braço antes da montagem:
O encaixe parece ok, né? Mas não tá correto. O Inaldo teve que fazer algumas de suas mágicas ali :)

         Por uma questão de economia, os chineses costumam fazer a "colagem espanhola" no braço. Isso não me incomoda e, tirando apenas o fato de não ser o padrão Gibson, essa manobra realmente acrescenta resistência ao braço. Umedeci um pouco a região da colagem para vocês verem o detalhe:


Pois bem, a cor teria que ser "TV Yellow" - um amarelo meio pálido que foi criado nos anos 50 porque o branco gerava um brilho muito intenso nas TVs preto e branco da época. As guitarras "TV Yellow" passavam por brancas, sem os reflexos :). Achar a cor é que foi foda. Há dezenas de variações atuais, indo desde o amarelo gema de ovo até o quase bege. Conversei com o Inaldo e usamos o tom de uma Gibson original que achei na internet.

Como tinha um jogo de tarraxas Sperzel com trava e um P90 DogEar do Rolph (sim, do próprio), utilizei-os nessa guitarra. Eu havia colocado o Rolph na LP Jr Gibson e ele soou nessa praticamente idêntico à Gibson. Fiquei de cara... :)

Se eu fosse comprar tudo na EDEN, essa guitarra custaria (sem impostos), cerca de R$ 800. O complicado pra quem quiser fazer isso é a parte do luthier, pois colagem (correta) de braço é uma coisa bem complicada de fazer em casa. Por sorte, meu relacionamento com o Inaldo é excelente e pude negociar com ele o "pacote" de colagem e pintura (nitrocelulose, fininha).
Vamos às especificações dos custos:
1 - EDEN LP Neck Set-in Type Mahogany Guitar Neck 24.75" 24-3/4" Scale Dot Inlay: $59,99 USD +           $35 USD shipping: $94,99 USD
2 - EDEN Unfinished Flat Top Mahogany Set-in Replacement Body for 1959 Les Paul Junior: $120 USD +       $35 USD shipping: $155 USD
      TOTAL braço e corpo:  $249,99 USD x 2,3: R$ 575,00
3 - Se fosse comprar na mesma loja, captador de alnico V (só vendem o par, então sobraria um), ponte e tarraxas seriam mais 150-230 reais. Vamos colocar 200: + 575: R$ 775,00
R$ 775 sem o acabamento... Mesmo que chegasse a 1.000-1.200 reais acrescentando o trabalho do luthier, ainda seria um belo preço :)

Outro excelente lugar pra comprar (china/ebay) - e foi onde eu comprei o corpo e braço para a minha (quase pronta) Les Paul DeLuxe é aqui (clique para braços) (clique para corpos):



Havia comprado um escudo (igual o da Gibson LP Jr single cut) pra ela mas não sabia que os escudos das Jr single e double cut são BEM diferentes... Ainda não consegui um lugar legal pra comprar o escudo adequado, mas por enquanto fica esse daí, que fiz cortando um balde de lixo de plástico preto :)
Assim como nas Teles e Stratos que monto, meu TOC não aceita um headstock e logo diferentes, então coloquei um logo Gibson porém acrescentei uma tampa de tensor bem distinta (um medalhão antigo) pra sugerir que NÃO é uma Gibson original (mas juro que tá soando como uma) :)
Já tava esquecendo: ela pesa apenas 3kg! :)



PS: havia esquecido que o Adriano Ramos (RDC GUITARS) já está fazendo corpos modelo Gibson para braço colado, de mogno/maple inclusive. Tudo com máquina CNC e o top escavado das LP tá perfeito. Soube disso somente depois de ter me aventurado na China...Tenho um belo top AAAA de flame maple aqui e minha próxima Les Paul será feita na RDC.
Claro, a RDC também faz LPs Jr (de mogno e com qualidade no mínimo igual ou maior que as chinesas) e conversando com ele após esse post, fiquei sabendo que há a possibilidade da gente comprar apenas o braço lá fora, enviar para o Adriano em Belo Horizonte e ele faz o corpo adequado e na medida do braço chinês, evitando as discrepâncias na escala e entonação. Não pretende fazer o trabalho de colagem e montagem - faz o corpo na medida e reenvia pra o cliente finalizar com um luthier da região ou, se tiver coragem e manha, em casa.

Alguns corpos fantásticos da RDC Guitars:





PS2: Já percebi que a Eden tá com pouca oferta atualmente, então passo links de outros locais que vendem corpos e braços "unfinished"/sem acabamento e montagem (clique nos nomes):
Beifang Music Store
Music Maker
mydzyefxy1716

E já que estou passando links de lojas chinesas do e-bay, NÃO recomendo essa:
Friendstore

Realmente, corpos de LP Jr acho que só na Eden por enquanto.  Mas Les Pauls - a maioria com qualidade de madeiras no nível das Epis ou até melhor, tá cheio. Digite na pesquisa do ebay "unfinished guitar body neck" e vá à caça. Volto a chamar a atenção para sempre tentar comprar kits "casados" - as chances de incomodações são menores... :)




quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Castelli Strat Model

Oscar Jr.

          O post de hoje é um tanto complicado de escrever. Quem nos acompanha sabe que somos meio (ahhahahahaha) puristas com relação a timbres e gostamos das coisas clássicas como elas foram originalmente concebidas  No entanto, tanto eu como o Paulo temos nosso lado experimental e gostamos de explorar novos rumos, desde que a santíssima trindade (Strat/Tele/LesPaul) exista ! rsrsrs



Brincadeiras à parte, há mais ou menos dois anos fui à oficina da Castelli como de costume para bater um papo com o Tom (luthier Tom Castelli) e acho que comprar algumas peças quando ele me mostrou um bloco de peça única de Alder que ele tinha guardado. Conversamos um pouco mais sobre as diferenças de um corpo em peça única e etc... deixei pra lá e vim embora.


Alder 1 Peça
Meses mais tarde, numa mesma conversa ele me contou que estava começando a planejar uma linha própria de instrumentos e que os designs já estavam sendo feitos, me mostrando os desenhos do modelo Strato. O modelo seguia basicamente o padrão Fender, porém com algumas leves diferenças nas formas mas achei lindo e na hora me veio a imagem daquele bloco em peça única.. POOOTZZ era o que faltava pra minha GAS ir a mil e eu acordar com ele que faríamos a Strat. O preço na época ficava um pouco mais baixo que o de uma American Standard e como eu estava no mercado por uma BOA strat, fechamos.

Ok Oscar, mas uma Partscaster dessa que vc's montam não é a mesma coisa? Digo, não vai dar o mesmo som de Fender Strato que no final é o objetivo? A resposta é SIM e NÃO. Por que fazer uma guitarra Custom com um luthier de sua confiança? No meu caso, acho que um instrumento custom feito pra VOCÊ, onde você participa de todas as etapas desde as escolha das madeiras, etc., é  uma experiência realmente muito legal e gratificante desde que o professional escolhido para o trabalho seja qualificado para tanto.

Com o Tom a gente participa de tudo. Ele discute e explica todas as opções e as escolhas são feitas em comum acordo sempre num service 100% customizado. Realmente não há 100% de certeza que o resultado final vai ficar bom, afinal madeira é madeira, mas é difícil uma guitarra BEM CONSTRUÍDA com madeiras bem secas e selecionadas soar morta. Quem já fez instrumentos com um BOM Luthier sabe do que eu estou falando, e mesmo eu sendo fã assumido de Fender, Gibson e todas as marcas famosas, tenho que admitir que um instrumento Custom pra VOCÊ é uma experiência diferenciada.


Uma Stratocaster não tem lá muito mistério na sua concepção, sendo o corpo de Alder, com braço em maple e escala de rosewood ou maple as combinações clássicas. Combinamos que manteríamos as madeiras mas do ponto de vista de construção, sempre existem detalhes que achamos que podem ser melhorados e implementados.

Notem a quantidade de veios entre as peças
Escolhemos o bloco de Maple (Hard Rock) para o braço, sempre optando pelo maior número de veios para dar mais resistência mecânica, e consequentemente transferência de vibrações. Há um ditado que diz que "o timbre da guitarra nasce no braço e amplifica no corpo" mas sempre achei que o conjunto tem que estar "conversando" muito mais do que atribuir ao braço e/ou corpo a maior responsabilidade. Agora um braço bem construído e que não empene/torça é sempre bem vindo e pra isso o Hard Rock Maple ajuda muito. Abaixo os blocos que escolhemos, "Plain Sawn" para manter a característica clássica. :-)



      Uma das modificações que o Tom faz em guitarra tipo Super Strat (Jackson Ibanez e etc) é a adição de 2 parafusos (aos 4 já presentes) por baixo do neck plate. Com mais dois parafusos puxando o braço contra o corpo, aumentamos a pressão de contato e consequentemente a transferência das vibrações do braço para o corpo. Com isso percebe-se um aumento do corpo do ataque das notas, que vem com um pouco mais de médio/graves. Já havia feito essa mod na minha finada Jackson e realmente o efeito é pra melhor, por isso o braço da Castelli Strat é fixado com 6 parafusos, mesma técnica usada pela Music Man. O Neck Plate de aço inox é para garantir que a pressão seja distribuída igualmente e o mesmo não afunde como acontece nos tradicionais de Zinco da Fender.





O braço é realmente a parte mais delicada do instrumento, pois está sujeito a empenos, torções e outros eventos que podem comprometer a tocabilidade. Visando aumentar a resistência do mesmo e deixá-lo menos susceptível aos efeitos do tempo, o Tom utiliza uma escala mais grossa nos seus braços. O Jacarandá é uma madeira bem dura e resistente e serve de reforço caso o maple se movimente com a tensão. É quase como implementar aquelas hastes de grafite que o Eddie Van Halen usa para reforçar os braços da EVH Wolfgang, mas na escala. Isso gasta mais madeira? Sim, especialmente o jacarandá que é caro e raro, mas segundo o Tom garante uma maior estabilidade do instrumento. Ele gosta de utilizar uma escala 2 mm mais grossa (7mm) que normalmente utilizado pela Fender (5mm).





       O conceito é aproveitar a excelente resistência mecânica do jacarandá  (baiano, comprado ainda nos anos 80 quando era legal) para ajudar na estabilidade do braço, diminuindo torções e empenamentos e segundo o próprio Tom, depois que começou a usar essa prática (também aplicada às outras escalas como de maple, ébano, etc.) na fabricação de seus braços, os empenamentos/torções mais acentuadas praticamente zeraram. A escala mais grossa de jacaranda parece acrescentar um pentelho de graves quando comparada às minhas outras Stratos, mas é difícil de quantificar com certeza se foi por isso ou algum outro fator no conjunto total. É o mesmo tipo de graves/complexidade que observo quando comparo um braço all maple com um com escala de Rosewood, por isso a minha "dedução", mas não dá pra afirmar com 100% de certeza.

Usamos trastes jumbo e escala 10" e decidi pela ponte Gotoh 510 SB, que é top de linha da marca com 2 pivôs para uso eventual da alavanca e, claro, "Steel Block".

         Depois de pronta e montada passei uns meses testando alguns captadores e pude perceber como uma guitarra "nova" é meio mutante. Parece que com o passar do tempo, a vibração das cordas ao tocar vai fazendo algo com a madeira e o som... Sei lá, pode ser coisa de louco mas essa Strat demorou uns 6 meses pra "assentar" e ficar consistente na sonoridade. Já li em vários lugares relatos de que uma guitarra pode demorar até um ano para que a tinta cure totalmente, as partes vibrem de maneira consistente etc.  No primeiro mês ela soava meio aguda e só depois começou a amaciar e soar como uma Strato deve. 


Escolhemos para o acabamento uma finíssima camada de verniz PU translúcido laranja (eu queria o visual de uma Fender Custom Shop TransOrange ) com escudo Mint-Green com 3 camadas.


Nem preciso dizer que curti muito o resultado. O som é 95% tradicional, talvez um pouco mais (uns 10-20%) de corpo e profundidade nos graves e ataque (mais rápido/seco e presente) comparando ao que normalmente encontramos numa Fender Strato Standard, mas 100% com o DNA clássico. O corpo de apenas uma peça de Alder não pareceu ter adicionado muita coisa na receita além da estética, mas o grande diferencial pra mim é a pegada, já que o braço foi modelado passo a passo para a minha mão. Realmente uma guitarra que nunca mais sai da coleção! :-)

                         

Quem quiser conhecer mais sobre o incrível trabalho da Castelli pode entrar no site www.dicastellis.com.br onde há muitas fotos e informação sobre a empresa que há mais de 25 anos constrói guitarras e baixos realizando sonhos de muita gente aqui em Curitiba.

Abaixo, um vídeo com sons da Castelli em duas configurações de captadores, o CBS 64  e os Vintage Noiseless do Sérgio Rosar. Gravei esses vídeos na época que ainda tinha a JR Guitar parts (que não existe mais). O amp é o meu Mesa Boogie Mark V. Dá pra sacar bem o DNA sonoro dela, mesmo com captadores tão diferentes!



Acredito que esse ano ou ano que vem a Castelli deverá lançar uma linha de série de guitarras que, segundo o que conversei com o Tom, vai seguir o shape básico dessa Strato e dos modelos do endorser André Hernandes. Já estou programando com ele uma entrevista nos moldes da que fizemos com o Sérgio Rosar. Vamos ver se vai dar certo!!

PS: Vale lembrar que este Blog não tem QUAISQUER afiliações comerciais com nenhuma das marcas aqui apresentadas. O que comentamos é 100% baseado nas nossas opiniões e experiências pessoais.



quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Instalando nickel cover num humbucker

Oscar Jr.

    Instalar uma nickel cover, ou mesmo a popular "Capinha" num humbucker não é física quântica, mas requer alguns cuidados para que a mesma fique perfeita e não cause problemas como microfonias e etc. Estava dando uma limpa no meu PC e achei uma série de fotos que fiz justamente pro blog sobre o assunto há um tempo atrás e que acabei esquecendo no computador.

Antes de metermos a mão na massa, vale lembrar que existem inúmeros modelos de capinhas de diversos materiais sendo produzidos hoje. As chinesas em geral são de latão cromado o que gera muita corrente parasita no conjunto do captador e degrada o campo magnético causando uma leve perda de agudos. O ideal é que as capinhas sejam feitas de Nickel ou Alpaca que são materiais mais transparentes ao campo magnético e degradam menos o som. Não vou entrar em detalhes muito técnicos pois já temos diversos posts no blog abordando o assunto. Lembre-se sempre de usar a busca antes de perguntar algo, OK?



Pra começar é necessário ter certeza que as medidas da capinha e do captador batem. Existem basicamente 3 medidas de espaçamentos de polos de humbuckers hoje no mercado. 2 de Humbucker Standard (49,5mm e 50mm) e Trembucker ou F-Spaced (52mm) e não podemos usar uma capinha de Trembucker (espaçamento tremolo de 52mm) com um captador de espaçamento standard (49,5mm) .


Uma vez tendo certeza do espaçamento correto é necessário ter certeza que não hajam espaços entre a capinha e o captador, especialmente na parte de cima pois isso pode causar vibrações indesejadas e fazer com que sua guitarra apite como um mestre de escola de samba. As grandes fábricas parafinam o conjunto inteiro, ou seja, instalam a capinha e mergulham o conjunto todo dentro de parafina liquida onde deixam por alguns minutos até que ela entre no captador e preencha bem os espaços. Podemos fazer esse mesmo processo utilizando parafina num pote em banho maria, mas eu acho meio perigoso isso pois se não controlada a temperatura, a parafina pode derreter as bobinas e danificar o pickup. Eu só coloco parafina no contato maior entre o captador e a capinha e sempre me resolveram bem!


Eu compro parafina para artesanato em qualquer loja do ramo, ela vem num pacote com bolinhas como na foto. É só colocar um pouco na capinha (pouco senao vai ser uma lambuseira) até cobrir toda a extensão.



Depois temos que derrete-la de modo que as bolinhas fiquem meio moles. Eu cubro os furinhos com uma fita crepe e uso um secador de cabelo para aos poucos ir derretendo. O aspecto fica como na foto acima.




Uma vez derretida vc vai ter alguns segundos com a parafina ainda meio mole para poder colocar o captador e ajustar tudo. Vai fazer um pouco de sujeita, mas tudo certo... Depois que ela seca é bem fácil remover. Tenha certeza que o captador está bem encaixado com os parafusos nos buracos apropriados. Eu uso um grampo/clamp desses de marceneiro para segurar tudo junto e fazer a solda na base afim de fixar os dois juntos.



















Depois de tudo soldado, pego mais uma vez o secador de cabelo e esquento o conjunto mais um pouco. Isso garantirá que a parafina da capinha derreta um pouco mais e se ajuste às ranhuras cobrindo bem os buracos, não deixando espaço para vibrações indesejadas.


Pronto, com um papel toalha é possível retirar o excesso de parafina que sobrar e fim de papo!! :-)

Edit: aqui duas fotos de uma adaptação feita num humbucker Sergio Rosar. Veja que é nescessario gastar a lateral uns 2-3mm antes de encaixar a capinha. 

             
                         A solda embaixo é só raspar a cobertura preta para expor o cobre da base! :)

                                           

Pra finalizar é só substituir os parafusos alen padrão do Sérgio, pelos Fender e pronto! A conversão está feita!


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Vale lembrar que se vc toca estilos extremos com uso de MUITO DRIVE E DISTORÇÃO, eu não recomendo que vc use esse método para instalar suas próprias capinhas. Aliás o melhor nesse caso é não usar capinha nenhuma, haja vista que mesmo as que já vem instaladas de fábrica podem ocasionar microfonias em ganhos mais extremos. No entanto se vc quer "incrementar" o visual da sua Les Paul para rock clássico e Blues por exemplo, funciona perfeitamente. Eu nunca tive problemas com as minhas !:-)